EM TORNO DA DECLARAÇÃO DE BOLONHA
No quadro da implementação da Declaração de Bolonha, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Profª Graça Carvalho, procedeu à nomeação de grupos de trabalho encarregados de fazer um conjunto de propostas à tutela sobre a implementação do processo de Bolonha em diferentes áreas disciplinares. Para esse efeito, a antropologia – em conjunto com a sociologia e o serviço social – foi englobada na área de conhecimento das “ciências sociais”. A coordenação dos trabalhos desta área foi assegurado pelo. Prof. Manuel Braga da Cruz, actual reitor da Universidade Católica, e traduziu-se na apresentação de um documento – que pode ser consultado no site do MCES – que formula um conjunto de recomendações sobre a aplicação da Declaração de Bolonha à área das ciências sociais. Dessas recomendações destaca-se em particular a defesa de um primeiro ciclo de formação inicial (bacharelato ou licenciatura) de três anos em ciências sociais, com as formações mais específicas nas diferentes áreas – antropologia, sociologia, etc. – a surgirem apenas ao nível do 2º ciclo (mestrado) de 2 anos.
Na altura em que escrevo, desconhece-se o que o governo saído das eleições de 20 de Fevereiro tenciona fazer com este documento. Mas o bom senso sugere que o caminho mais sensato seria deixá-lo cair. De facto, e antes do mais, o documento resulta de um agrupamento de áreas científicas – antropologia, sociologia, serviço social – que é arbitrário e limitativo, não somente pelo que inclui, mas também pelo que exclui. Em segundo lugar, existe um grande desfasamento entre as conclusões e as propostas do documento e a discussão efectiva no terreno, designadamente ao nível dos departamentos de sociologia e antropologia das universidades portuguesas, que têm vindo a tomar posições bastante diferentes das que o documento Braga da Cruz acolhe. Finalmente, o documento, ao pronunciar-se por um 1º ciclo em banda larga de ciências sociais compromete de forma inadmissível a individualidade institucional, científica e pedagógica das diferentes áreas das ciências sociais e, em particular, da antropologia.
Lisboa, Fevereiro de 2005
João Leal
Departamento de Antropologia, Universidade Nova de Lisboa
No quadro da implementação da Declaração de Bolonha, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Profª Graça Carvalho, procedeu à nomeação de grupos de trabalho encarregados de fazer um conjunto de propostas à tutela sobre a implementação do processo de Bolonha em diferentes áreas disciplinares. Para esse efeito, a antropologia – em conjunto com a sociologia e o serviço social – foi englobada na área de conhecimento das “ciências sociais”. A coordenação dos trabalhos desta área foi assegurado pelo. Prof. Manuel Braga da Cruz, actual reitor da Universidade Católica, e traduziu-se na apresentação de um documento – que pode ser consultado no site do MCES – que formula um conjunto de recomendações sobre a aplicação da Declaração de Bolonha à área das ciências sociais. Dessas recomendações destaca-se em particular a defesa de um primeiro ciclo de formação inicial (bacharelato ou licenciatura) de três anos em ciências sociais, com as formações mais específicas nas diferentes áreas – antropologia, sociologia, etc. – a surgirem apenas ao nível do 2º ciclo (mestrado) de 2 anos.
Na altura em que escrevo, desconhece-se o que o governo saído das eleições de 20 de Fevereiro tenciona fazer com este documento. Mas o bom senso sugere que o caminho mais sensato seria deixá-lo cair. De facto, e antes do mais, o documento resulta de um agrupamento de áreas científicas – antropologia, sociologia, serviço social – que é arbitrário e limitativo, não somente pelo que inclui, mas também pelo que exclui. Em segundo lugar, existe um grande desfasamento entre as conclusões e as propostas do documento e a discussão efectiva no terreno, designadamente ao nível dos departamentos de sociologia e antropologia das universidades portuguesas, que têm vindo a tomar posições bastante diferentes das que o documento Braga da Cruz acolhe. Finalmente, o documento, ao pronunciar-se por um 1º ciclo em banda larga de ciências sociais compromete de forma inadmissível a individualidade institucional, científica e pedagógica das diferentes áreas das ciências sociais e, em particular, da antropologia.
Lisboa, Fevereiro de 2005
João Leal
Departamento de Antropologia, Universidade Nova de Lisboa

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